terça-feira, 18 de setembro de 2012


 Escrevo pra não morrer engasgada com minhas angustias. Acho que, além do Luíz, não tenho outros leitores, então, escrevo por mim, por nós.
 Como eu me envergonho de ser gente! Eu tenho nojo de ser humana quando escuto um relato como o do meu atendimento hoje: um pai que tenta matar uma criança, que a abusa e humilha de todas as formas que só um ser humano pode fazer. Detesto quando alguém vem com aquele discursinho pronto e repetitivo: "Que absurdo! isso não é humano". Não é humano o caralho! Bicho não tem coragem de fazer tanta maldade.
 Cada dia que vivo, cada pessoa que passa pelos meus cuidados, vejo o quanto aprendo com elas. O quanto reclamamos por que no íntimo, não temos nada a reclamar. Tem gente que vive um filme de terror na vida real e, é pra essas pessoas que meu coração se dirige nesse momento. É pra você que foi massacrado pela vida, por sua própria família, foi corrompido, vilipendiado, jogado e esquecido - eu peço perdão. Me perdoem por ser egoísta, incompreensiva, queixosa da vida maravilhosa que tenho e muitas vezes não dou valor. Pra você que viu o pão na mesa e foi impedido de comer pra te torturarem. Que passou noites em claro por medo de morrer com as ameaças e a faca que o pai guarda embaixo do travesseiro. Pra você que foi enforcado pela pessoa que te gerou. Teve os cabelos puxados e seu corpo jogado contra a parede. Eu peço perdão pra você que teve de tirar a roupa e aguentar o peso sobre seu corpo de alguém da própria família. Que viu a poça de sangue na frente da sua casa, por uma faca que atravessou a mão da sua mãe. Dos aniversários que não te cantaram parabéns. Dos natais que foi dormir mais cedo pra que aquela noite vazia acabasse logo. Você, que teve a inocência roubada, seus sonhos atirados no lixo. Sua barriga roncando. Sua vida escarrada, eu peço, mais uma vez, perdão. Se minha profissão vale de alguma coisa, é pra te acolher, amparar. Obrigada a todos que confiam seus pesadelos, seus segredos mais íntimos aos meus cuidados. É por vocês que persisto!


sábado, 15 de setembro de 2012

You judged me and corrupted and blamed.
Had to change. You made me to be different that I am.
I had to reinvent myself.
But the person who created it has nothing to do with me.
Now I do not know what to do. This new intruder came over me and I can not measure forces.
And if I can no longer find me and lose me forever?
damn society



                                                                        (Procustes)



Samsara Átman

domingo, 9 de setembro de 2012

Poder morrer quando se quer Matar a si e o contrário de si Outrem que não é você mas que gostaria que Fosse tão seu quanto nem você o é Amar até o fim

sábado, 8 de setembro de 2012

Amor Poesia e Sabedoria (Edgar Morin)


A idéia de se poder definir o gênero homo atribuindo-lhe a A idéia de se poder definir o gênero homo atribuindo-lhe a qualidade de sapiens, ou seja, de um ser racional e sábio, é sem dúvida uma idéia pouco racional e sábia. Ser Homo implica ser igualmente demens: em manifestar uma afetividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor; em carregar consigo uma fonte permanente de delírio; em crer na virtude de sacrifícios sanguinolentos, e dar corpo, existência e poder a mitos e deuses de sua imaginação. Há no ser humano um foco permanente de Ubris, a desmesura dos gregos.
A loucura humana é fonte de ódio, crueldade, barbárie, cegueira. Mas sem as desordens da afetividade e as irrupções do imaginário, e sem a loucura do impossível, não haveria élan, criação, invenção, amor, poesia. O ser humano é um animal insuficiente, não apenas na razão, mas é também dotado de desrazão.
Temos, entretanto, necessidade de controlar o homo demens para exercer um pensamento racional, argumentado, crítico, complexo. Temos necessidade de inibir em nós o que o demens tem de homicida, malvado, imbecil. Temos necessidade de sabedoria, o que nos requer prudência, temperança, comedimento, desprendimento.
Prudência, sim, mas isso não significa esterilizar nossas vidas, evitar riscos a qualquer custo? Temperança, sim, mas será mesmo necessário evitar a experiência da "consumação" e do êxtase? Desprendimento, sim, mas será mesmo necessário renunciar aos laços de amizade e amor?
O mundo em que vivemos talvez seja um mundo de aparências, a espuma de uma realidade mais profunda que escapa ao tempo, ao espaço, a nossos sentidos e a nosso entendimento. Mas nosso mundo da separação, da dispersão, da finitude significa também o mundo da atração, do reencontro, da exaltação. E estamos plenamente imersos neste mundo que é o de nossos sofrimentos, felicidades e amores. Não experimentá-lo é evitar o sofrimento, mas também não haverá o gozo. Quanto mais estamos aptos à felicidade, mais nos aproximamos da infelicidade. O Tao-te-ching diz muito apropriadamente:"A infelicidade caminha lado a lado com a felicidade; a felicidade dorme ao pé da infelicidade." Estamos condenados ao paradoxo de manter em nós, simultaneamente, a consciência da vacuidade do mundo e da plenitude que nos propicia a vida quando pode ou quando quer. Se a sabedoria nos incita ao desapego do mundo da vida, será que ela está sendo verdadeiramente sábia? Se aspiramos à plenitude do amor, isso significa que somos verdadeiramente loucos?
Reconhecemos o amor como o ápice mais perfeito da loucura e da sabedoria, ou seja, que no amor, sabedoria e loucura não apenas são inseparáveis, mas se interpenetram mutuamente. Reconhecemos a poesia não apenas como um modo de expressão literária, mas como um estado segundo do ser que advém da participação, do fervor, da admiração, da comunhão, da embriaguez, da exaltação e, obviamente, do amor, que contém em si todas as expressões desse estado segundo. A poesia é liberada do mito e da razão, mas contém em si sua união. O estado poético nos transporta através da loucura e da sabedoria, e para além delas.
O amor faz parte da poesia da vida. A poesia faz parte do amor da vida. Amor e poesia engendram-se mutuamente e podem identificar-se um com o outro.
Se o amor expressa o ápice supremo da sabedoria e da loucura, é preciso assumir o amor.
A sabedoria pode problematizar o amor e a poesia, mas o amor e a poesia podem reciprocamente problematizar a sabedoria. O itinerário aqui proposto que conteria amor, poesia, sabedoria, comportaria, em si mesmo, esta mútua problematização.
Devemos fazer tudo para desenvolver nossa racionalidade, mas é em seu próprio desenvolvimento que a racionalidade reconhece os limites da razão, e efetua o diálogo com o irracionalizável.
O excesso de sabedoria pode transformar-se em loucura, mas a sabedoria só a impede, misturando-se à loucura da poesia e do amor.
Nosso cotidiano vive sempre em busca do sentido. Mas o sentido não é originário, não provém da exterioridade de nossos seres. Emerge da participação, da fraternização, do amor. O sentido do amor e da poesia é o sentido da qualidade suprema da vida. Amor e poesia, quando concebidos como fins e meios do viver, dão plenitude de sentido ao "viver por viver".
A partir daí, podemos assumir, mas com plena consciência, o destino antropológico do homo sapiens-demens, que implica nunca cessar de fazer dialogar em nós mesmos sabedoria e loucura, ousadia e prudência, economia e gasto, temperança e "consumação", desprendimento e apego.
Tudo isso implica endossar a tensão dialogal, que mantém permanentemente a complementaridade e o antagonismo entre amor-poesia e sabedoria-racionalidade.